Cérebro pode criar memórias falsas

E se nossa memória fosse maleável e pudesse inventar lembranças? Ao longo das últimas décadas, diversos estudos científicos comprovaram que o cérebro pode fabricar vivências, incluindo detalhes que nunca existiram.

O primeiro estudo sobre as falsas memórias data de 1893 e foi publicado na revista Science. Na época, o cientista americano James McKeen Cattell realizou uma experiência informal na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, para medir até que ponto nossas lembranças poderiam ser confiáveis.

Ao comparar as diferenças das histórias contadas pelos 56 estudantes sobre um mesmo fato, ele passou a questionar a veracidade dos testemunhos em processos judiciais. Ao longo do tempo, a questão se tornou alvo de estudos de diferentes pesquisadores, que se interessaram às consequências dos falsos depoimentos nos tribunais.

Nos anos 70, os estudos sobre as memórias fabricadas ganharam mais destaque com as experiências da psicóloga americana Elizabeth Loftus, na Universidade de Washington.

Especialista em estudos cognitivos, ela é considerada uma referência na compreensão dos mecanismos das lembranças deturpadas. Recentemente, ela até mesmo atuou como consultora no processo do produtor de Hollywood Harvey Weinstein, condenado por agressão sexual.

Perdidos no shopping

Um de seus estudos mais emblemáticos foi realizado em 1995 e mostra como o cérebro pode mudar ou inventar fatos passados. Em sua pesquisa, Elizabeth Roftus apresentou para um grupo de participantes quatro histórias de infância, que foram reconstituídas graças à ajuda das famílias.

Três delas eram verídicas, mas a quarta história foi totalmente inventada. Nela, alguns dos participantes teriam se perdido em um shopping, enquanto as mães faziam compras. Para encontrar os pais, eles foram ajudados por uma senhora.

A psicóloga americana queria saber se os participantes do estudo, ao serem induzidos pelos pais e entrevistadores, se “lembrariam” daquilo que, na realidade, nunca aconteceu.

Depois de apresentar as histórias, os pesquisadores então pediram aos participantes que descrevessem, com o maior número de detalhes possível, o que tinha acontecido.

O resultado foi surpreendente. Pelo menos 25% deles afirmaram que tinham se perdido no shopping e até mesmo incluíram detalhes imaginados, como os óculos usados pela pessoa que os ajudou a encontrar os pais, por exemplo.

A consolidação das lembranças

Hoje a Ciência já demonstrou que as memórias resultam de um processo cerebral dinâmico de reconstrução ou transformação.

O neurobiologista Pascal Roullet, da Universidade Paul Sabatier, em Toulouse, é um dos maiores especialistas franceses no assunto. Em entrevista à RFI, ele explicou como nosso cérebro arquiva e transforma uma memória.

“Quando vivenciamos uma situação, vamos nos lembrar dela durante alguns minutos e armazená-la na memória de curto prazo. Para guardá-la por mais tempo, teremos que processar a informação e transferi-la para memória de longo prazo. É o que chamamos de mecanismo de consolidação”, explica.

Nessa fase, há uma modificação das células nervosas e das conexões entre as sinapses dos neurônios, explica.

“A informação é tratada em termos neurobiológicos. Isso vai levar várias horas. Nos animais, sabemos que esse processo vai demorar entre seis e dez horas, o tempo necessário para que essa memória possa ser armazenada na memória de longo prazo.”

Em seguida, a informação fica definitivamente guardada no cérebro, mesmo se, com o passar do tempo, alguns detalhes são esquecidos.

O processo ocorre no hipocampo, uma estrutura cerebral localizada no lobo temporal, que vai reunir e “arquivar” as informações sensoriais relacionadas à lembrança, como cheiro, gosto ou sons, por exemplo. Em seguida, na fase de consolidação, o hipocampo compartilha a lembrança com outras áreas do cérebro.

“Uma memória não fica apenas guardada em um lugar só no cérebro. A parte visual fica em uma área, a olfativa e a espacial em outras, e assim por diante. Então, toda as vezes que nos lembramos de alguma coisa, vamos reativar o conjunto dessas estruturas, para que o hipocampo possa reconstituir nossa lembrança”, detalha Pascal Roullet.

De forma figurativa, é como se cada parte do cérebro fornecesse uma peça de um quebra-cabeça para que pudéssemos nos lembrar de uma história do começo ao fim.

Mas, essa peça, apesar de se encaixar no todo, não terá necessariamente os mesmos desenhos cores ou formas que foram inicialmente impressos nela.

O papel das emoções

Além do hipocampo, outras estruturas importantes atuam no processo de memorização, diz Pascal Roullet. Uma delas é a amígdala cerebral, no lobo temporal, que também terá um papel fundamental no processo da consolidação da memória.

Ela gerencia as emoções que sentimos quando vivenciamos certas situações, determinando se elas são mais ou menos importantes.

A amígdala é que definirá se uma lembrança é agradável, desagradável ou traumática. Se uma lembrança é neutra, ou seja, não tem importância, provavelmente será esquecida. Por outro lado, quanto mais positiva ou negativa for a experiência, mais ela será memorizada.

Após alguns anos, as lembranças mais antigas, chamadas em inglês de remote memory, passam a ser estocadas no córtex cingulado anterior, situado na parte frontal da cabeça. O hipocampo fica, desta forma, livre para tratar novas informações.

Isso explica porque pacientes com Alzheimer, por exemplo, podem se lembrar de fatos ocorridos há décadas, mas têm problema de memória imediata. A doença afeta exatamente o hipocampo, responsável pelo tratamento das informações mais recentes.

Memória maleável

A ideia de que uma memória é maleável foi comprovada em um dos estudos publicados pelo cientista Pascal Roullet, nos anos 2000, feito com camundongos, conhecidos pela excelente memória espacial.

A experiência confirmou que uma vivência pode ser manipulada durante um período de cerca de 90 minutos e ser armazenada novamente no cérebro do animal, em uma versão totalmente diferente.

Isso significa que uma lembrança não é estável ao longo do tempo, mas pode evoluir. Não é obrigatório, mas sabemos que ela pode evoluir.

Verdadeiro ou falso?

Quando nos lembramos de alguma coisa, diz Pascal Roullet, em geral temos certeza de que aquilo é verdade. É muito difícil ter consciência de que nossas memórias podem ter se distorcido ao longo do tempo.

Mas, a tendência natural, explica, principalmente quando os fatos são relembrados várias vezes, é que as pessoas exagerem e acrescentem detalhes que não existiam antes, como mostraram diversos estudos.

Essa plasticidade do cérebro permite induzir falsas memórias que podem ser perigosas. O cientista francês cita como exemplo um estudo que se tornou conhecido, publicado na revista Psychological Science, em 2015.

Nele, os pesquisadores, com a ajuda dos pais, contaram a um grupo de estudantes sem problemas de saúde ou antecedentes criminais, duas experiências que eles viveram no início da adolescência: uma verdadeira e outra que continha uma cena de violência, como um roubo ou uma agressão, totalmente falsa.

Na primeira vez em que ouviram as histórias, nenhum dos participantes se lembrou da agressão introduzida na segunda narrativa.

Uma semana depois, os cientistas questionaram novamente os estudantes, exercendo uma pressão parecida com a de um interrogatório policial. Mas eles insistiram que não se lembravam do fato.

Na terceira semana, ao serem questionados de novo sobre o que tinha acontecido, ou seja, quando a memória foi reativada pela segunda vez, 21 dos 30 estudantes acabaram convencidos de que tinham cometido uma agressão, acrescentando elementos que inclusive nunca foram sugeridos pelos pesquisadores.

“Eles não somente estavam convencidos de terem vivido essa história, como inventaram uma outra história, incluindo outros elementos. Essa pesquisa, de um ponto de vista ético, é bem discutível, porque os estudantes interiorizaram que tinha feito algo grave, que na realidade nunca ocorreu”, frisa.

A possibilidade de manipular as lembranças não significa, porém, que tudo aquilo de que nos lembramos é mentira, comenta Pascal Roullet.

Em neurobiologia, dizemos em geral que quando mais forte é uma lembrança, mais carregada de emoção, mais ela será corretamente memorizada.

Estresse pós-traumático

A descoberta de que as lembranças podem ser manipuladas, em determinadas circunstâncias, podem ajudar na luta contra o estresse pós-traumático, apagando memórias de eventos que impedem os pacientes de viver normalmente no cotidiano.

Pessoas que foram testemunhas de um atentado terrorista, vítimas de violência, ou estiveram em uma guerra, por exemplo, vão reviver fisicamente essas situações: sentirão taquicardia, suores frios ou terão desmaios, por exemplo, além de outros sintomas.

Ajudar esses pacientes é um dos objetivos do pesquisador francês Pascal Roullet. Ao iniciar seus estudos há mais de 20 anos, ele buscou confirmar a hipótese de que seria possível tratar traumas graves, com ou sem a ajuda de medicamentos, interferindo na maneira como o cérebro arquivou essas lembranças.

O pesquisador francês realizou, com a colaboração de outros cientistas, um estudo com camundongos, em 1998.

As pesquisas mostraram como é possível modificar a memória utilizando o propanolol, um betabloqueador indicado para hipertensão, usado também para diminuir a ansiedade e as dores da enxaqueca.

“No estudo com camundongos, mostramos que o propanolol não fazia efeito se fosse administrado ao camundongo em qualquer hora. Mas, ao reativar a lembrança e expor o animal a uma situação que o tinha “traumatizado”, somente por alguns segundos, o medicamento agia diminuindo a memória do camundongo.”

Pascal Roullet também monitora estudos clínicos envolvendo o uso da molécula em pacientes com o problema. O objetivo é reativar as memórias traumáticas e em seguida agir no momento em que elas estão maleáveis e podem ser modificadas pelo cérebro.

Atualmente, diz o cientista francês, entre 60 e 65% dos pacientes reagem bem à molécula. O desafio agora, diz, é entender porque algumas pessoas não respondem ao tratamento experimental. Pascal Roullet também iniciará em breve um estudo sobre o uso da escetamina, um antidepressivo, em casos de estresse pós-traumático. A molécula, diz, tem dado bons resultados.