A esquerda não é woke

Ilustríssima – Folha de São Paulo

Nascida em Atlanta, Susan Neiman, 68, estudou em Harvard e na Freie Universität Berlin e foi professora nas universidades de Tel Aviv e Yale. É diretora do Einstein Forum, organização de intercâmbio intelectual sediada na Alemanha, integrante da Sociedade Filosófica Americana e autora de O Mal no Pensamento Moderno (Difel, 2003) entre outras obras sobre filosofia moral, e eacaba de ter publicado no Brasil A Esquerda não é Woke, pela Editora Âyiné.

Em entrevista, ela faz críticas ácidas aos movimentos “woke”, termo usado para designar a preponderância de discursos concentrados em questões de identidade, raça e gênero. Na visão de Neiman, o conceito é complemente incoerente, pois mescla preocupações progressistas a uma ideia de tribalismo reacionária, e a esquerda erra ao abraçá-lo e deixar em segundo plano suas bandeiras históricas, como valores universais de justiça e igualdade.

Não foram poucas as vezes em que Susan Neiman foi acusada de fazer o jogo da direita. Enquanto escrevia A Esquerda Não É Woke, a filósofa americana ouviu de amigos um apelo para que não atacasse o movimento que é alvo de ultraconservadores, da estirpe de Donald Trump, nos EUA e em outros países.

Neiman se declara de esquerda, mas é uma crítica ácida dos grupos “woke”, que ocuparam espaço nessa mesma esquerda com um discurso concentrado em questões de identidade, raça e gênero.

“É um conceito completamente incoerente”, afirma a autora em entrevista à Folha. “[O movimento ‘woke’] depende de emoções de esquerda: o desejo de estar ao lado das pessoas oprimidas, o desejo de corrigir injustiças históricas. O que muitos não percebem é que suas ideias de esquerda são minadas por ideias filosóficas muito reacionárias.”

A filósofa diz que o movimento “woke” trocou o ideal de universalismo e se aprisionou em um tribalismo que limita suas batalhas políticas. Também teria deixado de lado a distinção entre justiça e poder e abandonado a expectativa de progresso.

Neiman cita exemplos como a reação de grupos “woke” aos ataques do Hamas a Israel em 2023 e debates de gênero dentro e fora do meio acadêmico para argumentar que não considera o tema apenas uma reflexão sobre princípios filosóficos, mas uma discussão concreta a respeito de prioridades da esquerda.

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A sra. estabelece uma distinção entre a esquerda e o movimento “woke” em um momento em que, muitas vezes, esses conceitos são tratados de forma quase intercambiável. Por que considerou importante fazer isso?

As pessoas estão terrivelmente confusas sobre o que significa ser de esquerda. A esquerda não é “woke”, e os “woke” não são de esquerda. Os “woke” pensam que são de esquerda, mas não são. A esquerda pode pensar que precisa ser “woke”, mas isso é um erro, pois envolve abandonar princípios cruciais que precisa manter.

A razão pela qual é tão difícil definir “woke” é que é um conceito completamente incoerente. Depende de emoções de esquerda: o desejo de estar ao lado das pessoas oprimidas, o desejo de corrigir injustiças históricas. O que muitos dos “woke” não percebem é que suas ideias de esquerda são minadas por ideias filosóficas muito reacionárias.

De que maneira o abandono desses princípios se traduz na prática?

A posição padrão da direita é que você só tem conexões profundas com pessoas da sua própria tribo. Alguns pensadores, desde o contrailuminista reacionário Joseph de Maistre até Carl Schmitt, diziam que não existe humanidade. Existem tribos individuais e, basicamente, não temos nada importante em comum.

Para a esquerda, é um princípio básico fundamental que podemos ter conexões profundas com todos os tipos de pessoas e que devemos abstrair nossas diferenças para ter uma ideia de humanidade merecedora de direitos, simplesmente por ser humana.

Isso é uma ideia de esquerda que os “woke” simplesmente abandonaram. Não há algo universal, só valores patriarcais, eurocêntricos, brancos, disfarçados de valores universais. É uma visão extremamente reacionária, uma maneira pela qual os “woke” simplesmente minam valores de esquerda e nos tornam prisioneiros de nossas origens tribais. A ideia de que você é condenado a votar de certa forma porque vem de uma certa tribo, por exemplo.

Por essa ótica, a sra. diria que lutas por igualdade de gênero ou contra a discriminação racial são incompatíveis com valores universalistas? Ou é uma questão de método?

Elas não são essencialmente incompatíveis [com o universalismo] de maneira nenhuma, mas esses grupos estão agindo errado. A igualdade de gênero e a igualdade racial pertencem, sim, à ideia de universalismo.

A sra. afirma que os “woke” não acreditam em uma distinção entre justiça e poder. Quais são as consequências disso?

Esse é mais um conceito de direita, a ideia de que justiça é um conceito falso usado para enganar, porque tudo o que realmente nos move é o desejo por poder. Podemos falar sobre Schmitt, podemos falar sobre [Michel] Foucault.

Estar à esquerda envolve perceber que, às vezes, as pessoas fazem afirmações sobre justiça, virtude ou democracia que realmente são parte de uma disputa por poder. Mas estar na esquerda é tentar fazer essa distinção e não apenas acreditar que isso é falso.

Um exemplo: muitos dos “woke”, no dia seguinte a 7 de outubro [de 2023, quando ocorreu o ataque terrorista do Hamas a Israel], decidiram que o que estava acontecendo era uma questão de times. Há muito pouco entendimento da história do conflito. Não se fala sobre questões de justiça, mas a justiça tem que ser um conceito universal, você tem que pensar em um conceito geral de justiça em vez de “meu time tem que vencer”.

A sra. argumenta que, se tudo é uma disputa de poder, tudo seria aceitável, incluindo atos de violência?

Certo.

A ideia de que os “woke” abandonaram a esperança por progresso seria uma consequência das desigualdades permanentes que esses grupos enxergam, uma manifestação de raiva e cansaço, ou é uma escolha política?

Eu diria que é tudo isso, mas eu penso que é menos uma escolha que um sentimento de resignação.

No livro, falo sobre o ano de 1991 como uma data crucial e sobre as maneiras pelas quais o fim do socialismo real poderia ter aberto um conjunto de possibilidades.

Você teve um momento histórico muito interessante em que as finanças, as classes políticas e a cultura popular disseram juntas: não há alternativa, este é o fim da história, tudo vai acabar em neoliberalismo global e qualquer um que pense o contrário é um velho hippie ou um stalinista enrustido.

Essa foi uma mensagem reforçada pela psicologia evolucionista, com a ideia de que as pessoas são simplesmente movidas pelo desejo de se reproduzirem, que está embutido em seus genes e não há nada que você possa fazer. É uma visão profundamente pessimista.

Você diz que o movimento “woke” representa não apenas um risco para a esquerda como uma organização política, mas também prejudica a luta contra o que chama de protofascismo. Como isso ocorre, na sua visão?

Os “woke” são profundamente alienantes para pessoas que, de outra forma, seriam ativistas de esquerda engajados. Há pessoas que dizem não suportar esse foco em política simbólica, não suportar essa presunção, e vão olhar para a direita.

Pessoas como [Donald] Trump ou Rishi Sunak na Grã-Bretanha e talvez [Jair] Bolsonaro têm usado os excessos dos “woke” para criticar toda ação antirracista, antissexista, anti-homofóbica.

Mas, na verdade, isso tem impedido muitas pessoas de esquerda de serem politicamente ativas porque sentem que não têm um abrigo político. Elas vão a uma reunião e, de repente, se veem envolvidas no fato de terem usado um termo que agora é tabu ou terem usado o pronome errado.

Outro conceito errado é a ideia de que a razão é um instrumento de dominação. Se for o caso, por que se preocupar em entender um argumento ou formulá-lo?

É muito mais fácil simplesmente falar sobre posicionalidade: queremos uma pessoa dessa tribo e uma pessoa daquela tribo, não importa o que elas dizem ou pensam. O que importa é de onde elas são, onde estão localizadas e sua origem étnica. O menosprezo da razão no discurso se encaixa muito bem no tribalismo.

Como responde a críticas ao livro, em especial aquelas que afirmam que a sra. faz uma generalização do movimento “woke” e da esquerda?

Um autor alemão me criticou com a visão de que não existe “woke”, e [uma resenha no Los Angeles Review of Books] seguiu na mesma direção, de que eu estava usando exemplos esquisitos e que aquilo não era realmente um fenômeno, que eu estava jogando o jogo da direita. Aquilo não descrevia o que eu escrevi.

Curiosamente, os dois autores são teóricos queer, e eu não tenho ideia se isso significa algo ou não —e se trazer isso à tona me expõe a acusações de homofobia. Não acho que sou homofóbica, mas sempre tenho suspeita de mulheres cuja vida é dedicada a pensar sobre sexismo, pessoas negras cuja vida é dedicada a pensar sobre racismo, pessoas gays cuja vida é dedicada a pensar sobre direitos dos gays.

Há uma maneira em que as mulheres que só escrevem sobre discriminação contra mulheres estão se autoguetizando sem perceber. Preferiria que a história das mulheres fizesse parte da história geral. Odeio o Dia Internacional da Mulher, não quero que haja um Dia Internacional da Mulher a menos que haja um Dia Internacional dos Homens. Acho que o Dia Internacional da Mulher é discriminação contra as mulheres, porque não nos considera parte da raça humana.

Qual é o peso da oposição de Trump às ideias do movimento “woke” em sua campanha presidencial, e o que a vitória dele pode representar para os direitos desses grupos?

Citaria Noam Chomsky, que disse na eleição de 2020 que, se Trump conseguisse outro mandato, o mundo acabaria. Acho que ele não está errado. [A oposição de Trump ao “woke”] atrai as pessoas.

Antes das eleições [dos EUA] de 2022, quando todos previam que os republicanos controlariam o Congresso, dei uma palestra em uma universidade em Nova York. Os republicanos hoje em dia não são só conservadores, são loucos, protofascistas.

No final, eu disse: seria ótimo se vocês estudantes passassem menos tempo discutindo pronomes de gênero e mais tempo focados nos direitos de voto. Recebi uma tempestade de críticas. Uma professora disse: “Sou a mãe orgulhosa de um menino, menina, seja lá o que for, trans de 10 anos”.

Deixo de lado a questão sobre se alguém pode saber se é trans aos 10 anos —acho que isso é um problema. As pessoas começaram a dizer que eu era transfóbica. Eu disse: “Olha, se os republicanos assumirem o Congresso, as pessoas trans serão as primeiras da fila. Nem estou falando sobre direitos trans, estou falando sobre prioridades”.

Em países como o Brasil, há uma certa tensão nas elites políticas de esquerda entre a proposta de abraçar ideias do movimento “woke” e manter o foco em questões socioeconômicas. Como vê essa questão?

Acho que a desigualdade social é terrivelmente importante e que os “woke” perderam esse foco. Mas também não sou uma reducionista de classe. Não acho que sejamos determinados por nossa classe mais que somos determinados por raça e sexo.

Hesito em fazer análises sobre lugares que não conheço bem e estou realmente muito animada em ir para o Brasil, mas gostaria que todo país em desenvolvimento fosse capaz de apelar para esse tipo de ideia e dizer que não se trata de identidade versus quanto dinheiro você tem ou se você tem um emprego.

A questão é se podemos imaginar uma sociedade na qual estamos suficientemente conectados para sentir solidariedade com pessoas que estão sofrendo e para sentir a conexão de um projeto comum, com o qual todos nos importamos.